A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca sustentada mais comum na prática clínica. Ela afeta cerca de 1 a 2% da população geral, com prevalência que cresce progressivamente com a idade — dados do Framingham Heart Study mostram que 37% das pessoas desenvolvem FA após os 55 anos.
O que acontece no coração?
Em condições normais, o coração bate de forma ritmada e coordenada. Na fibrilação atrial, as câmaras superiores — os átrios — passam a produzir impulsos elétricos caóticos a 300–500 disparos por minuto, em vez dos 60–100 habituais. O resultado é um ritmo cardíaco irregular e, frequentemente, acelerado.
Quais são os sintomas?
A apresentação varia muito de pessoa para pessoa.
- Palpitações — sensação de coração disparado ou batendo de forma irregular
- Falta de ar, especialmente ao esforço
- Fadiga e cansaço desproporcional
- Tontura ou sensação de cabeça leve
- Dor ou desconforto no peito
Um dado relevante das diretrizes de 2023: entre 10% e 40% dos pacientes com fibrilação atrial não apresentam nenhum sintoma. A arritmia é descoberta por acaso num eletrocardiograma de rotina — o que reforça a importância do check-up periódico.
Por que a fibrilação atrial é perigosa?
O principal risco não é o ritmo irregular em si, mas a formação de coágulos. Quando os átrios não se contraem de forma eficiente, o sangue pode estagnarse em seu interior e formar trombos. Se um coágulo migra para o cérebro, causa um AVC.
De acordo com dados consolidados na literatura, pacientes com fibrilação atrial têm risco de AVC 4 a 5 vezes maior do que a população geral. Além disso, a FA está associada a maior risco de insuficiência cardíaca, infarto, demência e mortalidade geral.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito pelo eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração em 12 derivações. Quando a fibrilação atrial é paroxística — vem e vai — pode ser necessário um Holter de 24 horas ou um monitor de eventos por período mais longo para capturar o episódio.
Como é o tratamento?
O tratamento tem três pilares principais: prevenção do AVC, controle da frequência cardíaca e controle do ritmo.
Prevenção do AVC com anticoagulação
A decisão de anticoagular é a mais importante no manejo da FA. Evidências consolidadas mostram que os anticoagulantes orais reduzem o risco de AVC em 60% a 80% em comparação ao placebo. Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) são preferidos na maioria dos pacientes por apresentarem menor risco de sangramento — especialmente menor risco de hemorragia intracraniana — em relação à varfarina.
Um ponto importante: a aspirina não é recomendada para prevenir AVC na fibrilação atrial. Sua eficácia é inferior à da anticoagulação e seu perfil de risco é semelhante. Isso é explícito nas diretrizes americanas (ACC/AHA 2023) e europeias (ESC 2024).
Controle da frequência e do ritmo
Medicamentos como betabloqueadores e bloqueadores dos canais de cálcio reduzem a velocidade com que os impulsos chegam aos ventrículos, aliviando sintomas. Quando o objetivo é restaurar o ritmo normal, as opções incluem medicamentos antiarrítmicos, cardioversão elétrica (choque sincronizado sob sedação) ou ablação por cateter.
Ablação por cateter: quando é indicada?
A ablação — procedimento que elimina focos elétricos anômalos geralmente localizados nas veias pulmonares — recebeu destaque crescente nas diretrizes recentes. Tanto as diretrizes americanas de 2023 quanto as europeias de 2024 a classificam como opção de primeira linha em pacientes selecionados com FA paroxística sintomática, especialmente os mais jovens e com menos comorbidades.
Em pacientes com insuficiência cardíaca e função ventricular reduzida, estudos randomizados demonstraram que a ablação é superior à terapia medicamentosa, com melhora da função cardíaca e redução de hospitalização.
O estilo de vida importa?
Sim — e mais do que muitos imaginam. As diretrizes americanas de 2023 classificam como recomendação de Classe 1 (a mais forte) as seguintes medidas:
- Controle do peso e da obesidade
- Prática regular de exercício físico
- Cessação do tabagismo
- Moderação ou eliminação do álcool
- Controle rigoroso da pressão arterial
Fibrilação atrial tem cura?
Em muitos casos, sim. A ablação por cateter apresenta taxas relevantes de sucesso, especialmente na FA paroxística. Mas mesmo quando o ritmo não é completamente normalizado, o tratamento adequado reduz significativamente os riscos e melhora a qualidade de vida.
