Dr. Leonardo Fischer
28 de junho de 20266 min de leitura

Fibrilação atrial: o que é e como tratar?

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Dr. Leonardo Fischer

Cardiologista · CRM-SC 24.443

A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca sustentada mais comum na prática clínica. Ela afeta cerca de 1 a 2% da população geral, com prevalência que cresce progressivamente com a idade — dados do Framingham Heart Study mostram que 37% das pessoas desenvolvem FA após os 55 anos.

O que acontece no coração?

Em condições normais, o coração bate de forma ritmada e coordenada. Na fibrilação atrial, as câmaras superiores — os átrios — passam a produzir impulsos elétricos caóticos a 300–500 disparos por minuto, em vez dos 60–100 habituais. O resultado é um ritmo cardíaco irregular e, frequentemente, acelerado.

Quais são os sintomas?

A apresentação varia muito de pessoa para pessoa.

  • Palpitações — sensação de coração disparado ou batendo de forma irregular
  • Falta de ar, especialmente ao esforço
  • Fadiga e cansaço desproporcional
  • Tontura ou sensação de cabeça leve
  • Dor ou desconforto no peito

Um dado relevante das diretrizes de 2023: entre 10% e 40% dos pacientes com fibrilação atrial não apresentam nenhum sintoma. A arritmia é descoberta por acaso num eletrocardiograma de rotina — o que reforça a importância do check-up periódico.

Por que a fibrilação atrial é perigosa?

O principal risco não é o ritmo irregular em si, mas a formação de coágulos. Quando os átrios não se contraem de forma eficiente, o sangue pode estagnarse em seu interior e formar trombos. Se um coágulo migra para o cérebro, causa um AVC.

De acordo com dados consolidados na literatura, pacientes com fibrilação atrial têm risco de AVC 4 a 5 vezes maior do que a população geral. Além disso, a FA está associada a maior risco de insuficiência cardíaca, infarto, demência e mortalidade geral.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é feito pelo eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração em 12 derivações. Quando a fibrilação atrial é paroxística — vem e vai — pode ser necessário um Holter de 24 horas ou um monitor de eventos por período mais longo para capturar o episódio.

Como é o tratamento?

O tratamento tem três pilares principais: prevenção do AVC, controle da frequência cardíaca e controle do ritmo.

Prevenção do AVC com anticoagulação

A decisão de anticoagular é a mais importante no manejo da FA. Evidências consolidadas mostram que os anticoagulantes orais reduzem o risco de AVC em 60% a 80% em comparação ao placebo. Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) são preferidos na maioria dos pacientes por apresentarem menor risco de sangramento — especialmente menor risco de hemorragia intracraniana — em relação à varfarina.

Um ponto importante: a aspirina não é recomendada para prevenir AVC na fibrilação atrial. Sua eficácia é inferior à da anticoagulação e seu perfil de risco é semelhante. Isso é explícito nas diretrizes americanas (ACC/AHA 2023) e europeias (ESC 2024).

Controle da frequência e do ritmo

Medicamentos como betabloqueadores e bloqueadores dos canais de cálcio reduzem a velocidade com que os impulsos chegam aos ventrículos, aliviando sintomas. Quando o objetivo é restaurar o ritmo normal, as opções incluem medicamentos antiarrítmicos, cardioversão elétrica (choque sincronizado sob sedação) ou ablação por cateter.

Ablação por cateter: quando é indicada?

A ablação — procedimento que elimina focos elétricos anômalos geralmente localizados nas veias pulmonares — recebeu destaque crescente nas diretrizes recentes. Tanto as diretrizes americanas de 2023 quanto as europeias de 2024 a classificam como opção de primeira linha em pacientes selecionados com FA paroxística sintomática, especialmente os mais jovens e com menos comorbidades.

Em pacientes com insuficiência cardíaca e função ventricular reduzida, estudos randomizados demonstraram que a ablação é superior à terapia medicamentosa, com melhora da função cardíaca e redução de hospitalização.

O estilo de vida importa?

Sim — e mais do que muitos imaginam. As diretrizes americanas de 2023 classificam como recomendação de Classe 1 (a mais forte) as seguintes medidas:

  • Controle do peso e da obesidade
  • Prática regular de exercício físico
  • Cessação do tabagismo
  • Moderação ou eliminação do álcool
  • Controle rigoroso da pressão arterial

Fibrilação atrial tem cura?

Em muitos casos, sim. A ablação por cateter apresenta taxas relevantes de sucesso, especialmente na FA paroxística. Mas mesmo quando o ritmo não é completamente normalizado, o tratamento adequado reduz significativamente os riscos e melhora a qualidade de vida.

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