Ouvir que vai precisar de uma 'cardioversão elétrica' — ou popularmente, um 'choque no coração' — costuma causar apreensão. Mas é um dos procedimentos mais consolidados e seguros da cardiologia, usado rotineiramente para devolver o coração ao ritmo normal quando ele entra em uma arritmia como a fibrilação atrial.
O que é a cardioversão elétrica?
É a aplicação de um choque de corrente elétrica, sincronizado com o próprio batimento do coração (o QRS do ECG), com o objetivo de interromper o circuito elétrico desorganizado que sustenta a arritmia e permitir que o nó sinusal — o 'marca-passo natural' do coração — retome o comando do ritmo.
A sincronização com o batimento cardíaco é um detalhe técnico fundamental: um choque aplicado no momento errado do ciclo cardíaco pode, paradoxalmente, provocar uma arritmia ainda mais grave. Por isso o procedimento é sempre feito por equipe treinada, com monitorização contínua.
Quando é indicada?
A principal indicação é a fibrilação atrial (e o flutter atrial), nas seguintes situações:
- Emergência: quando a arritmia causa instabilidade — queda de pressão importante, dor no peito ou piora súbita da falta de ar — a cardioversão elétrica é feita imediatamente
- Eletiva: quando a pessoa está estável, mas o médico opta por reverter o ritmo em vez de apenas controlar a frequência cardíaca, seja por escolha do paciente, por sintomas persistentes, ou porque a cardioversão medicamentosa não funcionou
Por que a anticoagulação prévia é tão importante?
Este é o ponto mais importante do preparo: quando a fibrilação atrial dura 48 horas ou mais (ou o tempo de início é desconhecido), o átrio pode ter formado um coágulo. Reverter o ritmo sem essa precaução pode deslocar esse coágulo e causar um AVC.
Por isso, as diretrizes atuais (ACC/AHA/ACCP/HRS 2023) recomendam anticoagulação plena e ininterrupta por 3 semanas antes da cardioversão eletiva — ou, alternativamente, um ecocardiograma transesofágico para descartar coágulo no átrio antes do procedimento. Se um coágulo for identificado, a cardioversão é adiada e a anticoagulação mantida por mais 3 a 6 semanas, com reavaliação por imagem antes de tentar novamente.
Um detalhe pouco conhecido: o risco de coágulo não vem apenas de antes do procedimento. Depois que o ritmo volta ao normal, o átrio passa por um período de 'atordoamento' mecânico temporário, no qual o risco de formar um novo coágulo é mais de 10 vezes maior — por isso a anticoagulação continua obrigatória por pelo menos 4 semanas após a cardioversão, independente do escore de risco calculado.
Como é feito o procedimento?
A cardioversão elétrica exige sedação — a pessoa não sente o choque. Eletrodos (pás ou adesivos) são posicionados no tórax e, sob monitorização, é aplicado um choque de energia bifásica, sincronizado ao ritmo cardíaco. Estudos mostram que usar uma energia inicial mais alta desde o primeiro choque tem taxa de sucesso muito superior a começar com energia baixa e ir aumentando aos poucos.
As taxas de sucesso são altas: em um dos principais estudos sobre o tema, 92% dos pacientes reverteram para ritmo sinusal já com o protocolo padrão de choques.
Quais são os riscos?
- Fibrilação ventricular, caso o choque não esteja bem sincronizado — por isso a checagem da sincronização é obrigatória antes de cada tentativa
- Eventos tromboembólicos (incluindo AVC), especialmente se a anticoagulação não for feita corretamente antes e depois do procedimento
- Riscos relacionados à sedação
- Alterações transitórias de frequência cardíaca ou pressão arterial, monitoradas durante e após o procedimento
E depois da cardioversão?
Mesmo com o ritmo revertido com sucesso, a anticoagulação continua por no mínimo 4 semanas — essa etapa não pode ser pulada. Depois desse período, o cardiologista reavalia o risco individual de AVC (escore CHA₂DS₂-VASc) para decidir se a anticoagulação deve continuar a longo prazo ou pode ser suspensa.
A cardioversão reverte o ritmo no momento, mas não trata necessariamente a causa da arritmia — por isso costuma vir acompanhada de um plano de acompanhamento cardiológico contínuo, que pode incluir medicação antiarrítmica ou, em casos selecionados, ablação por cateter.
