Dr. Leonardo Fischer
28 de junho de 20266 min de leitura

Reposição de testosterona (TRT) é segura para o coração?

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Dr. Leonardo Fischer

Cardiologista · CRM-SC 24.443

A terapia de reposição de testosterona (TRT) é um dos temas mais discutidos — e mais mal compreendidos — na medicina contemporânea. Durante anos, pairou sobre ela uma nuvem de dúvida sobre segurança cardiovascular. Em 2023, o maior ensaio clínico já realizado sobre o tema trouxe respostas importantes.

TRT não é a mesma coisa que anabolizante

Antes de qualquer coisa, é fundamental deixar claro: TRT médica e uso de anabolizantes são coisas completamente diferentes.

A TRT tem como objetivo restaurar os níveis de testosterona ao intervalo fisiológico normal em homens com hipogonadismo comprovado — ou seja, deficiência hormonal confirmada por exames. Os anabolizantes, por outro lado, são usados em doses suprafisiológicas, muito acima do que o organismo produziria naturalmente, com finalidade estética ou de desempenho. Os efeitos cardiovasculares dessas duas situações são radicalmente diferentes.

O que diz o estudo TRAVERSE (NEJM 2023)

O ensaio TRAVERSE foi o maior estudo randomizado já conduzido sobre segurança cardiovascular da TRT. Foram 5.246 homens com hipogonadismo e doença cardiovascular estabelecida ou alto risco cardiovascular, acompanhados por média de 33 meses.

Resultado principal: a TRT não aumentou o risco de infarto, AVC ou morte cardiovascular em comparação ao placebo. Eventos cardiovasculares maiores ocorreram em 7,0% do grupo testosterona versus 7,3% no grupo placebo — diferença sem significância estatística.

Após análise do TRAVERSE e de 19 meta-análises anteriores, a Androgen Society publicou em 2024 no Mayo Clinic Proceedings sua posição: foi determinado conclusivamente que a TRT não está associada a aumento de risco de infarto, AVC ou morte cardiovascular. O FDA também removeu o alerta de caixa preta que havia sido adicionado em 2015 sobre possível risco cardiovascular.

Pontos de atenção que persistem

O TRAVERSE não foi totalmente isento de sinais de alerta. Dois achados merecem cautela:

Embolia pulmonar: houve maior incidência no grupo testosterona (0,9% vs 0,5%). A diferença não atingiu significância estatística, mas é suficiente para recomendar cuidado em homens com histórico de tromboembolismo.

Fibrilação atrial: o estudo identificou maior incidência de fibrilação atrial no grupo TRT. Homens com predisposição a arritmias devem ser avaliados individualmente antes de iniciar o tratamento.

Quando a TRT é contraindicada?

Contraindicações absolutas, segundo as diretrizes da Endocrine Society:

  • Infarto do miocárdio ou AVC nos últimos 6 meses
  • Insuficiência cardíaca descompensada
  • Trombofilia (tendência à formação de coágulos)

A TRT melhora o colesterol?

Não. A TRT em doses fisiológicas tem efeitos modestos no perfil lipídico — e as diretrizes são claras: ela não deve ser usada como estratégia para melhorar colesterol ou reduzir risco cardiovascular. Quem precisa tratar colesterol deve tratar o colesterol, com as medidas adequadas para isso.

Então posso fazer TRT sem preocupação com o coração?

Se você tem hipogonadismo confirmado, não tem contraindicações e vai fazer o tratamento com acompanhamento médico adequado, a evidência atual é tranquilizadora para os desfechos principais — infarto, AVC e morte cardiovascular. Ainda assim, os sinais sobre embolia pulmonar e fibrilação atrial justificam avaliação cardiológica antes do início, especialmente em homens com fatores de risco.

A decisão de iniciar TRT deve sempre envolver um endocrinologista e, nos casos de risco cardiovascular elevado, um cardiologista.

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